quarta-feira, 1 de maio de 2013

Julio Rego, timbre e bom gosto melódico

Julio Rego, gaitista de Aracaju SE, integrante do trio Café Pequeno, em entrevista para Fernando Xavier, fala sobre sua abordagem da gaita diatônica e da dicas de técnicas:  


Quando você migrou do blues para música instrumental brasileira, quais foram os maiores desafios que você enfrentou?
Gosto de blues, sempre gostei, e há uma linguagem e metodologia desenvolvida para a gaita diatônica fortemente influenciada por este estilo musical. Entretanto, transitar por diferentes harmonias, desvincular-se da ideia de "posições" aplicada à gaita blues, experimentar diferentes articulações, o uso da técnica de overbend, o estudo da afinação  entre outras peculiaridades do chamado "cromatismo", enfim,  essas coisas são trabalhosas e desafiadoras nessa migração.

Qual a razão para usar apenas a gaita em C?
Pensar em uma única afinação facilita-me o mapeamento do instrumento, saber onde estão as notas e a familiarização com as articulações. Foi com a gaita C, sistema Richter, que comecei a estudar cromatismo com Otavio Castro. É certo que de vez em quando sinto falta de algumas notas abaixo do C3, evitaria transpor algumas melodias, mas sua tessitura é muito boa, dá pra tocar muita coisa, tô acostumado com essa gaita, é a que tenho usado quase sempre.  Estudo um pouco de cromática também e com isso os dois instrumentos já me dão um certo trabalho.. Ainda assim uso A um pouco, gosto muito de sua sonoridade, gosto da Bb também. Sinto que para tocar em outra afinação como toco a C é necessário um processo de aprendizagem de um novo instrumento observando não apenas a disposição das notas mas também o trato vocal e construção das notas. Pode ser um pouco de exagero, eu sei, mas é quase isso.  Mas acho que cada afinação tem sua expressão e na verdade não deixei de usa-las.. nada melhor, por exemplo, do que um bom blues com a pegada e sonoridade de sua escola tradicional, onde a metodologia das "posições" aplicada à gaita blues dá bastante resultado. Mas penso que o importante não é só tocar cromaticamente as três oitavas do instrumento, seja qual for sua afinação ou seja qual for o estilo musical e não tenho dúvidas que o uso de outras afinações pode enriquecer o resultado, criar novas opções de timbres e expressões, como faz o Howard Levy.

Uma das coisas mais impressionantes na sua técnica é o equilíbrio do timbre das suas notas! Como chegou neste resultado? 
Obrigado pelo comentário!  Para mim tudo começa pelo som que dá origem à nota.  Na gaita diatônica a sonoridade de um bend ou overbend pode até se aproximar do som de uma nota soprada ou aspirada, e procuro, sim, essa aproximação, na medida do possível  sei que ela pode ser importante na execução. Mas penso que a heterogeneidade de timbres ao longo da extensão do instrumento jamais será quebrada e que essa diversidade, entretanto, pode ser  encarada como uma vantagem. Gosto muito da expressividade do instrumento, da possibilidade de modulação dos timbres de suas notas através do uso das mãos, com o sopro, com vibrato, etc. Não toco com muita velocidade mas extrair a melhor expressão de cada som no instrumento é uma busca minha que pode ser equivalente ao que você chamou de "equilíbrio".


Você prepara suas próprias gaitas para a técnica dos overbends?


Faço o básico para a manutenção mas sei que preciso me aperfeiçoar nessa área,  até por uma questão de continuar viabilizando meu trabalho. Acho que é sempre necessário um ajuste do instrumento à individualidade do gaitista. Atualmente tô sem luthyer ,  infelizmente, tô com esse problema.


Tem alguma recomendação de estudo para aqueles que gostariam de tocar música instrumental brasileira na diatônica?
Recomendo o estudo do som do instrumento, o estudo da articulações entre suas notas. Recomendo o estudo de harmonia. Recomendo ouvir bons músicos, independente do instrumento que eles toquem.  Recomendo ouvir choro, bossa nova, baião, etc. A música brasileira é muito rica.  Recomendo ouvir Howard Levy e Otavio Castro, eles têm técnicas impressionantes,  se possível fazer aulas com eles. Gosto dos franceses Sebastien Charlier e Alexander Tholon, do belga Thierry Crommen e dos também brasileiros Diego Sales, Pablo Fagundes e Paulo Prot. Sei que há mais gente mas infelizmente não conheço o trabalho de muitos músicos que estudam o cromatismo.



Valeu por participar!
Obrigado pela oportunidade!

Escute Julio Rego:
http://www.myspace.com/cafepequenoinstrumental






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